quinta-feira, 3 de julho de 2008

Ccatcca (3700m) - Cusco (3200m)



Acordamos para encarar o que prometia ser mais uma interminável subida. Ao arrumar as coisas pela manhã, notei que a capa de chuva e os alforges estavam ligeiramente congelados, e não tinham lá muita flexibilidade. Assim como o equipamento, nossos corpos também não tinham lá muita flexibilidade com essas temperaturas, e a regulação térmica foi conturbada durante a pedalada. O forte sol e o vento gelado nos obrigou a parar várias vezes para trocar de roupas. Estava difícil achar uma combinação adequada que não nos fizesse tremer de frio, ou se esvair em suor.

Para nosso espanto, com apenas 8km de subida chegamos ao seu fim, na Abra Coyuni, à 4185m de altitude. De lá começou a melhor descida até aqui, onde baixamos à 3283m de altitude, em meia hora de uma descida forte, numa estrada perfeita, cheia de curvas fechadas e precipícios. Tudo que eu sonhava. Ali eu vi que uma falha qualquer nos freios nos trariam sérios problemas. Ao final dessa maravilhosa descida acabava a Carretera Interoceânica, nas proximidades da cidade de Urcos, cerca de 40km de Cusco.

Novamente foi perceptível uma mudança brusca no ambiente, com o clima ficando bem mais quente e a vegetação mais xérica, com a presença de muitas cactáceas. Até a sinalizaçao da rodovia nos indicavam sinais dessa mudança, com uma sugestiva dica acatada prontamente. Foi muito agradável pegar um vento e um bronze nas canelas depois de alguns dias dessas privações.

Na estrada já era possível observar alguns sítios arqueológicos, e até algumas ruínas pré-colombianas - sinais das proximidades de um grande sítio arqueológico. Concomitantemente nossos outros sentidos não tiveram a mesma sorte. O fedor de um rio poluído bem próximo à rodovia, a grande quantidade de fumaça negra inalada (advinda dos escapamentos dos agora numerosos caminhões) e o incômodo barulho de aviões subindo e descendo mais à frente, nos davam outro sinal - a proximidade de um "moderno" centro urbano. Paradoxo? Não, se chama Cusco mesmo.
Chegamos à sua famosa Plaza de Armas no dia 26/06, por volta das 16h. Graças ao Erick, um dentista cusqueño que conhecemos no albergue de Puerto Maldonado, conseguimos alojamento com nossa barraca em um casarão antigo de sua propriedade, localizado no centro histórico de Cusco. Salve!

Subindo os Andes: Km 117 (4600m) - Ccatcca (3700m)



Depois da noite gelada, saímos pra enfrentar os 5km que nos separavam da parte mais alta da estrada. Foi necessário uma hora de subida em meio as alpacas e lhamas para atingir os picos nevados, a exatos 4748m de altitude. Com uma caminhadinha simbólica era possível tocar a neve dos gigantes. Um visual muito bonito. Mais bonito ainda era saber que dali pra frente era só a longa descida prometida, que começou com uma estrada de terra batida e logo se transformou em um asfalto novinho em folha. Ao todo foram cerca de 4 horas descendo sem parar, passando por várias vilas peruanas bem tradicionais.















A mudança de ambiente após o cume foi abrupta. Finalmente havíamos acabado de atravessar o divisor entre a Amazônia e a Puna peruana. A cordilheira nevada ao fundo dava especial beleza àquela paisagem. Como nem tudo era beleza, a descida foi bem desgastante. Era impossível passar dos 40km/h devido ao frio. O vento estava muito seco e o sol muito forte, maltratando muito a boca, que logo se encheu de feridas, e os olhos que ficaram bem ressecados e irritados.


Depois de passarmos por Ocongate, ao final da longa descida, começou uma inesperada e interminável subida, por povoados onde mais uma vez não nos sentimos muito à vontade. Já bem cansados, e desconfortáveis com as indesejosas recepções ao longo do caminho, onde éramos "gentilmente" chamados de "GRINGOOOOS!", paramos no primeiro hotel que encontramos no povoado de Ccatcca para um repouso necessário.

Subindo os Andes: Marcapata (3100m) - Km 117 (4600m)















O dia tinha que começar cedo para passarmos em uma temperatura suportável pela "Abra", o ponto mais alto da estrada. Acordamos às 6h, mas só tivemos coragem pra sair da cama às 7h. Tava muito frio. A ponta dos dedos já estavam dando umas formigadas, mesmo com luva. Mandamos outro Arroz com frango e saímos as 9h pra mais um dia exclusivo de subida.


Chegamos por volta das 10h15m num posto de controle da Rodovia Interoceânica, onde nós, e qualquer outro veículo, fomos impedidos de passar até o meio-dia. Tentamos autorização para passar, falando por rádio com um engenheiro brasileiro responsável pela obra. Perdendo esse tempo dificilmente passaríamos pela "Abra" antes do anoitecer, e frio preocupava devido à altitude. Ele nos disse que estavam dinamitando pedras pelo caminho, e era muito perigosa nossa passagem pela estrada naquele momento. Contudo, nos garantiu que saindo ao meio-dia era perfeitamente possível vencer os 12km de pura subida até o topo, e que de lá era só uma grande descida até o próximo povoado. Acreditamos nele, e seguimos.
No caminho foram surgindo várias informações desencontradas sobre a real distância e tempo necessários para alcançar a Abra. No final das contas, descobrimos às 17h30m, que a Abra estava ainda 5 km acima, e havia por ali somente alguns povoados Quéchuas bem tradicionais, que não falavam espanhol, e nem iam com a nossa cara. O frio tava apertando, e não havia nenhum sítio plano e seco para acampar fora da estrada.

Por sorte, mais acima chegamos a um posto de obras da rodovia, que iria funcionar toda a noite. Lá, aproveitamos para esquentar nossos pés ao calor do gerador de iluminação, e levantar acampamento. Conhecemos uns funcionários da obra, que estavam de vigias a noite toda, e nos deram uma super força, oferecendo até um lanche quente pra gente durante a noite. Um deles chegou ao cúmulo de colocar uma mega-pedra atrás da nossa barraca com uma escavadeira, para que os caminhões da obra não nos oferecesse perigo. Que noite fria! Segundo os funcionários da empresa atingiu 10 graus negativos, o suficiente para dar uma pane no meu ciclocomputador e zerar o odômetro. Foi a primeira noite da viagem em que adormeci com os pés gelados.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Subindo os Andes: Tchau Pitchaca (1500m) - Marcapata (3100m)














Depois de um mate quente, saimos cedo para mais um dia inteiro de subida até a vila de Marcapata. Só subida! Como sabíamos o que nos esperava, aproveitamos para tomar um café da manhã mais reforçado, no estilo peruano (arroz, mandioca frita e frango). Esperando a comida chegar, ineperandamente vimos um urso andino morto no interior do restaurante. Na verdade era a metade de baixo dele, que estava sendo investigada, ou talvez até saboreada, por um vira-lata bem contente. Mesmo depois dessa cena, meu café da manhã caiu muito bem, e o meu frango me pareceu com gosto de frango. Pelo menos foi o que pensei.

Uns povoados à frente conhemos os pais de Célia, a médica que nos hospedou no povoado União Progresso. Eles nos ofereceram um lanche reforçado, que foi muito bem vindo para seguir nosso rumo. Lá para as 15h30m o frio foi apertando mais, nos obrigando a descer da bike de tempos em tempos para uma acalentadora caminhadinha. O sangue circulava melhor nos pés, deixando-os menos duros. O pior era que tinhamos que atravessar vários riozinhos na estrada, e molhar os pés naquele frio era desanimador. Atenção redobrada.
Havia a promessa de um povoado com banhos de águas termais à 5km da vila de Marcapata. Ao chegarmos no tal lugar sentimos um ambiente bem sinistro, com várias pessoas nos pedindo "propina" e outras tantas completamente "borachas" pela rua. Resolvemos desencanar do sonhado banho quente, e seguimos sem mais delongas até Maracapata, onde nos hospedamos num hotelzinho bem do esquisito.

Subindo os Andes: Quince mil (600m) - Tchau Pitchaca (1500m)



Tivemos que sair um pouco tarde, por conta da mega chuva que começou a noite e só foi acabar lá pro meio-dia. Ainda sim, saimos debaixo de uma garoa fina pra subida. Apesar da chuva que caiu, no caminho foi possível observar o "Galo de las Rocas", uma ave de vermelho forte, um dos símbolos aqui do Perú. Continuamos pedalando pelas margens do rio Inambari onde além dos bichos, o frio também começou a aparecer.
Dormimos na casa comunal do pequeno povoado de Tchau Pitchaca, onde conhecemos Fábio e Henrique, coletores de Bambu para a confeção das "Zamponhas", aquele famoso instrumento de sopro bem característico do país. Com eles conhecemos o "Kaniwa", a farinha de um cereal da região peruana de Puno, que alimenta mais que carne-seca com farinha. Provado e aprovado.