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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Rota das Lagunas, Uyuni - Laguna Verde

Sem dúvida, este foi o trajeto mais interessante até aqui. Foram 11 dias para percorrer os 480km que separam Uyuni de Hito Cajone, na fronteira com o Chile, passando paisagens realmente impressionantes composta por vulcões, gêiseres, salares, lagoas, formações rochosas ímpares (como a "árbol de piedra" - foto acima) e até um deserto.


As condições desse percurso também não foram lá muito triviais. Não há estradas por lá, só restando como acesso as trilhas deixadas pelos 4X4 que fazem tours pela região, constituídas basicamente pela combinação de 3 elementos: areia, pedra e costela-de-vaca (ondulações regulares na trilha). A altitude quase sempre ultrapassa os 4000m, chegando à 4950m (o ponto mais alto pedalado até aqui). A consequência é um frio constante apesar dos dias ensolarados, em que registramos em uma noite 14 graus negativos dentro da barraca (equivalente a cerca de -20 graus fora!). O vento é algo incompreensível. São rajadas muito fortes e duradouras que, por sorte, predominaram somente no terço final deste trecho. Além de dar uma surra na minha barraca, deixando-lhe sérias avarias, foi responsável pelo recorde de ineficência da viagem, em que num dia de vento contra nos exigiu 2 horas para cobrir míseros 4 km! Somado a isso tudo, a ausência de infra-estrutura ao longo do caminho nos obrigou a rachar a cabeça com o planejamento, e pedalar com uma sobre-carga de provisões para uma semana, incluindo algo em torno de 10 litros de água por pessoa.

Ainda em Uyuni conhecemos Markus, um cicloturista Austríaco que vem fazendo várias viagens em bicicleta pelo mundo à uns 10 anos. Como também tinha interesse em fazer este trajeto, acabou integrando nossa caravana rumo ao Chile.

Logo no primeiro dia tive a oportunidade de realizar um grande sonho, o de pedalar no famoso Salar de Uyuni. Foram 70 km do mais puro sal até a Isla Incahuasi, onde passamos a noite. Uma pena que o tempo não estava lá muito bom, contudo, foi graças à ele que no dia seguinte pude ver pela primeira vez um pouco de neve cair sobre minha bicicleta.


Passamos por várias lagoas das mais diferentes cores e odores, sempre repleta de flamingos (um dos poucos seres que habitam essas bandas). Talvez a mais incomum seja a Laguna Colorada, na entrada da Reserva Nacional Eduardo Avaroa, que devido a presença de determinadas algas, possui uma coloração avermelhada que varia de tonalidade ao longo do dia.

Outra lagoa que também impressiona é a Blanca, aos pés do vulcão Lincancabur, que apesar do nome possui uma coloração verde-esmeralda. Assim, depois de uma noite de muito vento no horrível e caro hotel nas proximidades dessa Lagoa, nos despedimos da Bolívia onde peladalamos nos últimos 40 dias. Nos despedimoos também de Markus, que seguiu sua viagem rumo à San Pedro do Atacama, enquanto tomamos o rumo oposto em direção ao Paso de Jama, na Argentina.

Realizar este trajeto é algo muito gratificante, pelo que nos exige, e pelo que nos oferece em recompensa. Vale muito à pena.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Potosí - Uyuni

Os dias em Potosí foram de muito descanso e planejamento, já que o trecho que viria pela frente era bem delicado. Aproveitamos para estudar bem todo o material deixado na casa de ciclistas por outros cicliviajeiros que fizeram o caminho inverso. Com a rota bem conhecida, nos despedimos de Florêncio e Teodora para seguirmos em direção a Uyuni, onde se localiza o maior salar do mundo. Foram necessários 4 dias para percorrer os 220km de uma estrada de pura terra, onde aconteceu de tudo.



Logo no primeiro dia enfrentamos um forte vento contra, capaz de nos derrumar com bicicleta e tudo. Eram rajadas de vento muito forte, que enchiam nossa boca de terra. Tava dando pra cuspir tijolo! O pior é que foi todo o dia assim, muito vento e sobe-e-desce. Cansados, resolvemos por fim parar para acampar com míseros 35km rodados e com meu pneu furado.

Logo no início do segundo dia (já sem muito vento) Ana cái de bicicleta numa subida, e com fortes dores no braço, resolve seguir de carona até o próximo povoado para tentar um atendimento médico. Felipe e eu seguimos de bicicleta rumo ao tal povoado, e após 1 hora de subida meu pneu traseiro fura novamente. Depois de remendá-lo percebo que ele estava rasgado. Como havia notado uma deformação neste pneu ainda em La Paz, comprei por lá um reserva que foi imediatamente pra jogo. Agora com os dois pneus novos, e de qualidade, espero não ter mais problemas.

Pouco tempo depois chegamos ao tal povoado, onde encontramos Ana já medicada e sem grandes problemas. Seguimos viagem (a Ana por precaução seguiu em outra carona até um povoado onde planejávamos dormir) com a estrada péssima, cada vez mais cheia de pedras e "costelas de vaca". A suculejada foi tão forte, que um ponto de solda do meu bagageiro dianteiro não resistiu e quebrou. Nada que uma gambiarra não resolvesse.


O terceiro dia começou com uma subida que durou intermináveis 3 horas. Como depois de toda subida vem uma descida, lá vamos nós abaixo novamente pela pela terrível estradinha, onde percebo um barulhinho novo na bicicleta. Desta vez quem pediu as contas foi um raio da roda traseira. Santa estradinha! Tive que seguir num ritmo bem tranquilo até Uyuni, afim de evitar que a roda virasse um ovo.


Depois de amanhecermos numa friaca de 11 graus negativos, e de pedalar 65km de mais terra, subida e buraqueira, chegamos à esquisita cidade de Uyuni, que fica no meio do nada. Ficaremos uns 2 dias para colocar bicicletas em dia e planejar a saída da Bolívia por Hito Cajone, passando pelas famosas lagunas. O caminho promete poucos pontos de apoio, muito vento e uma friaca de até 20 graus negativos. Haja casaco...

quinta-feira, 31 de julho de 2008

La Paz - Potosí















Depois de uma semana de rolé em La Paz e seus arredores, segui com Ana e Phillip para Potosí, a cidade mais alta do mundo, em 1 semana de pedal. Até a cidade de Oruro, famosa pelo seu carnaval, seguimos pelo grande pampa do Altiplano Boliviano, com retas intermináveis e bem monótonas de até 40km de extensão.


Saindo de Oruro entramos numa região mais interessante, cheia de montanhas e cânions, de onde era possível ouvir o barulho de dinamites explodindo nas minas de prata das proximidades da rodovia. É claro que o preço dessas belas paisagens foram dias mais duros, com muitas subidas, mas também com muitas descidas, onde pudemos atingir facilmente os 70km/h. Chegando à cidade de Potosí, atingimos no mesmo dia os pontos mais alto e mais baixo do trecho, à 4275 e 3400m de altitude.

A viagem até aqui foi bem tranquila, já que na Bolívia as estradas estão em ótimo estado de conservação, possuem baixo tráfico de automóveis e poucos povoados em seu curso, sendo que muitos deles mais pareciam povoados fantasma. Passamos por dois balenários termais, onde paramos para dar uma descongelada no corpo, além de dois bloqueios de estrada por manifestanes (algo bem recorrente na Bolívia), que apesar do clima tenso, atravessamos nenhuma problema.

Em Potosí nos hospedamos na casa de Florêncio e Teodora, um casal muito simpático e gentil, que fazem de sua casa uma das poucas casas de ciclistas da América do Sul. Lá eles hospedam cicloturistas do mundo todo à uns 30 anos. A hospitalidade foi tanta que nos sentimos em casa instantâneamente. Nada como uma bela "pizzada" de recepção...

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Copacabana - La Paz

Enquanto passeava de bobeira por Copacabana depois do almoço, conheci Philip (suíço) e Ana (colombiana), um casal que está viajando a quase um ano pela América do Sul em bicicleta. Como estariam partindo de Copacabana para La Paz no mesmo dia em que eu, combinamos de seguir juntos.




No primeiro dia contemplamos o visual mais bonito do Lago Titicaca, subindo e descendo pequenos morros, e pegando um frio de congelar os dedos. Durante o caminho foi possível ter uma bela vista da Montanha Llampú, com seus mais de 6300m de altitude, e de toda a Cordilheira Real, uma cadeia de montanhas nevadas próxima da cidade de La Paz. Ao fim do dia conseguimos um bom lugar pra acampar à margem do Titikaka, a cerca de 6 km da cidade de Huarina. Durante a noite ventou um pouco e fez muito frio, o suficiente para acordarmos com as barracas e bicicletas cobertas com uma fina cama de gelo.















No dia seguinte saímos para um dia bem duro até La Paz. Foram 82km feitos bem rápido, para que pudéssemos chegar em um horário seguro por lá. Além de monótona, a estrada não tinha lá muito apelo visual, e pra piorar, chegando em La Paz começa um tráfico intenso e caótico de vans, soltando muita fumaça e buzinando desesperadamente. Pra completar o quadro, a pequena deformação que aparecera no meu pneu dianteiro a alguns dias evoluíra para um pequeno rasgo em crescimento, que poderia comprometer a minha chegada na cidade.

Quando pensei que já havia chegado, me dei conta que estávamos somente em "El Alto", na zona metropolitana de La Paz. Uma cidade muito pobre, que vem crescendo muito rápido em função do fuga dos campesinos para o meio urbano. O centro de La Paz estava uns 400m abaixo dali, acessível por uma terrível autopista de 10km de extensão.

A descida foi para mim a verdadeira estrada da morte*. O trânsito estava intenso, a estrada toda esburacada, e nós bem cansados. Por volta das 14h, finalmente chegamos à Plaza San Francisco. Agora seriam mais uns diazinhos tranqüilos de turista, com muita comilança no Mercado pra acumular umas energias.




*Alusão a uma das mais conhecidas atrações turísticas da região, a Estrada da Morte, um grande "downhill" feito em bicicleta organizado por algumas agências de turismo, em uma estrada tenebrosa até a cidade de Coroico. Ao contrário do preço, o passeio parece ser interessante.

domingo, 13 de julho de 2008

Puno - Copacabana (sempre cerca dos 3800m)















Recuperado, segui para Copacabana em 2 dias de viagem. Apesar dessa região ser bem fria, a estrada é muito plana, tornando a pedalada mais tranquila. No primeiro dia cheguei a pequena cidade de Juli, numa estrada de retas intermináveis pelo "puro pampa", como dizem por aqui. O Lago mesmo, só vi pela manhã.

Logo no início do segundo dia, a estrada se aproximou novamente da margem do Titikaka, e pude assim apreciar o belo azul de suas águas. Como nem tudo é maravilha, depois de passar pela simpática cidade de Pomata, peguei um longo trecho de vento contra, que baixou minha velocidade média à metade, me dando uma boa canseira.


Por volta das 16h, já sem muito vento, cheguei à fronteira com a Bolívia onde gastei um tempo para agilizar a papelada na imigração, e trocar meus Soles por Bolivianos. Cheguei à turística cidade de Copacabana, 8 km à frente, à tempo de pegar um belo pôr do sol num confortável quarto de hotel de frente pro Titikaka. Que mordomia! Mesmo com banheiro privado, ducha quente e TV a cabo, paguei o mesmo preço que pagava nos muquifos de banheiro compartilhado do Perú. Tudo isso por causa de uma fronteira...

















A cidadezinha é muito agradável e com boas atrações turísticas. E o melhor de tudo... é muito barata! Aproveitei para ficar 2 dias de rolé, e comer bem. De agora em diante estaria 1 fuso horário a menos em relação ao Perú. O chato foi que pra descobrir isso tive que perder de bobeira um almoço, por chegar 1hora mais tarde no restaurante. Aprendi rapidinho.